Mubarak e o 'novo regime'
"É ESCUSADO. NÃO POSSO TER OUTRO PARTIDO SENÃO O DA LIBERDADE" MIGUEL TORGA
1.º de maio – A decisão de uma cadeia de supermercados de reduzir os preços em 50%, em compras superiores a 100 €, foi uma ofensa gratuita aos trabalhadores e a forma grotesca de escarnecer as lutas sindicais que, desde 1886, lutam pela dignificação do trabalho.
França – A vitória de Hollande abre uma janela de oportunidades para suavizar a austeridade e a violência das medidas tomadas em Portugal com um novo rumo para a Europa solidária que os seus fundadores sonharam.
Grécia – O desespero fez perder o tino ao eleitorado e as eleições, longe de terem contribuído para uma solução, agravaram o problema cuja saída será sempre traumática para os gregos e imprevisível para a Europa. A reincidência não vai alterar a tragédia.
Alemanha – As derrotas do partido da senhora Merkel nas eleições estaduais são um bom prenúncio para o inevitável fim de ciclo. O liberalismo económico, responsável pelo colapso das economias, tem sido o beneficiário eleitoral das desgraças que criou.
Forças Armadas Portuguesas – As restrições orçamentais colocam os três ramos praticamente inoperacionais. As aviões não voam, os barcos não navegam e os tanques param. Podiam vender-se os submarinos, ainda novos, e com comissões já recebidas.
Desemprego – Os números dramáticos, que não param de aumentar, não são uma oportunidade, são uma tragédia que a austeridade não resolve e para a qual não se veem medidas nem solução.
Sistema de Informações da República – A promiscuidade entre um serviço que devia pautar-se por elevados padrões éticos, ao serviço da República, desacredita-se internacionalmente e torna-se um perigo interno, ao serviço da luta partidária.
Governo Francês – A redução de 30% nos vencimentos e a paridade de género – 17 homens e 17 mulheres – são medidas simpáticas e justas. Já o regresso da idade da reforma para 60 anos é uma medida perigosa para o futuro da Segurança Social.
Madeira – O deputado autóctone, Coito Pita, ameaçou mais uma vez com a independência da Madeira. Apesar do alívio que representaria para as contas públicas, trata-se de um crime que não pode ser ignorado pelo PR, PM e Tribunais.
Hospitais Militares – Finalmente foi aprovado um hospital militar único. Parecia que o corpo humano tinha órgãos e doenças diferentes consoante o ramo das Forças Armadas de cada militar.
Vaticano – A divulgação de documentos secretos, que põem em xeque a Cúria romana, conduziu à prisão do mordomo do Papa e à demissão o diretor do Banco da Santa Sé. É um escândalo colossal que arrasa a já débil confiança no pequeno Estado.
Itália – A corrupção no futebol lançou a consternação e a vergonha no país, com vários casos a revelarem a combinação prévia de resultados, à medida dos interesses dos apostadores. Em Portugal, o processo «apito dourado» mostrou que não somos a Itália.
Síria – O Conselho de Segurança da ONU condenou mais um massacre de 108 mortos e 300 feridos civis, desta vez incluindo a Rússia, tradicional aliada da Síria. Até quando se tolera a chacina sistemática de um povo para manter equilíbrios estratégicos?
Egito – Eleições realizadas em contexto religioso nunca conduzem à democracia e facilmente legitimam regimes que trocam uma constituição laica pela sharia. Entre um cúmplice do ditador derrubado e um Irmão Muçulmano escolha o Diabo.
Pinto Balsemão – A devassa da vida privada do velho jornalista e ex-primeiro-ministro, por agentes secretos, é uma infâmia que envergonha Portugal, compromete a tutela e põe em causa o Estado de direito e os mais elementares direitos dos cidadãos.
BPN – As acusações à deficiente vigilância do Banco de Portugal e a discussão das medidas tomadas pelo ministério das Finanças escondem os autores dos crimes atrás das entidades de supervisão bancária.
FMI – A instituição tem sido gerida por pessoas certamente muito competentes mas o último diretor enredou-se em escândalos sexuais e a atual, Christine Lagarde, perdeu a oportunidade de calar a insensibilidade perante a fome das crianças gregas.
Silva Carvalho – O espião que trocou a ética pelos negócios, enlameou a honra de um ministro e trouxe à memória os métodos usados pela PIDE. A sua conduta denegriu os serviços que chefiou e debilitou o Governo.
Monumento ao 25 de Abril em Almeida – Deve-se à Câmara Municipal o Monumento a inaugurar no dia 2 de Julho, dia do feriado municipal. Este executivo honrou a data mais importante das nossas vidas e o seu gesto fará história.
Ao comemorarmos o 4.º aniversário da Associação Ateísta Portuguesa (AAP) saúdo todos os sócios, ateus e ateias que vieram e os que não puderam vir, agnósticos, racionalistas e todos os livres-pensadores, especialmente os que vivem em países onde são excluídos, perseguidos e mortos pelo fanatismo das teocracias ou marginalizados pelo poder, onde as religiões se infiltraram no aparelho do Estado. Neste caso, estendo a solidariedade aos crentes das religiões minoritárias, igualmente vítimas das religiões dominantes.
Em Israel, com os judeus das trancinhas à Dama das Camélias, o sionismo espalha a violência e a morte na faixa de Gaza; nos EUA o protestantismo evangélico ganha força e restringe as liberdades; em África assiste-se a um duelo mortal entre o islamismo e protestantismo evangélico; no norte de África a primavera árabe caminha para a sharia e, enquanto na Grécia a Santíssima Trindade preside aos atos políticos, por intermédio do clero ortodoxo, a Turquia reislamiza-se perigosamente e muitos países são vítimas do fascismo islâmico. Os monoteísmos são detonadores de guerras mas o islamismo e o cristianismo digladiam-se na imposição das suas superstições e mentiras à escala planetária.
Em Portugal a Constituição é letra morta quando se trata de cerimónias de Estado, quase sempre assistidas por dignitários católicos, embrulhados nas vestes talares, em lugares de evidência. As procissões e outros atos pios são abrilhantados pelos cavalos da GNR e pelas forças policiais e militares dos diversos ramos à custa do erário público. Em época de eleições não faltam excursões a Fátima promovidas e pagas pelas autarquias.
Os professores de Religião católica são nomeados discricionariamente pelos bispos e pagos pelo Estado, contando o tempo para progressão na carreira de uma disciplina para a qual tenham habilitações e, assim, ultrapassarem colegas mais classificados.
O feriado do 5 de outubro, data emblemática do regime e da separação da Igreja e do Estado, foi suprimido em conluio com a Igreja católica, a única que acrescenta aos 52 domingos que já tem, os únicos feriados religiosos que existem e gozam de igualdade perante os feriados cívicos.
Enquanto a Irlanda suprime a embaixada do Vaticano, Portugal mantém, a cem metros da Italiana, outra, que não cabe no bairro de 44 hectares onde está acreditada. A pobreza e o desemprego fazem com que a Igreja católica readquira o poder perdido, infiltrando-se nas áreas da educação, assistência e saúde, com o poder crescente das Misericórdias.
Cabe à AAP lutar para que, neste período de crise, o IMI e o IRC seja estendido às instituições da Igreja, com exceção dos edifícios destinados ao culto. Os privilégios de que goza são uma ofensa à laicidade e uma fonte de iniquidade, muitas vezes de concorrência desleal, com colégios, lares, hospitais, universidade, editoras e outros estabelecimentos comerciais isentos de impostos.
Cabe à AAP defender a igualdade dos cidadãos perante a lei e a laicidade do Estado, respeitando os crentes e combatendo o poder das religiões, rumo a uma sociedade onde as crenças particulares não interfiram nos assuntos de Estado. É o nosso objetivo, a bem da paz, do progresso, da cidadania e da secularização de Portugal.
Bom almoço. Vale mais um bom almoço do que a última ceia. Saudações ateístas.
Coimbra, 26 de maio de 2012